Com lavouras irregulares, Argentina não deve colher safra recorde de soja

Com a quebra da safra de soja dos Estados Unidos, as atenções se voltaram para a produção sul-americana. Na safra 2012/2013 o Brasil deve responder por 31% da produção mundial e a Argentina poderá ser responsável por 20% da soja produzida no mundo. Com o ciclo brasileiro já na fase da colheita, devendo fechar com 82 milhões de toneladas, o tamanho da safra da América do Sul será definido principalmente pela safra argentina.

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), a estimativa é de que a produção do país vizinho chegue a 54 milhões de toneladas, 35% a mais do que os 40 milhões do ciclo passado, quando houve quebra de safra devido à forte estiagem. Porém, analistas e produtores argentinos não acreditam em uma safra maior do que 52 milhões de toneladas devido às condições climáticas, com muita chuva no segundo semestre de 2012 e quase nenhuma em janeiro. Este cenário pode influenciar ainda os preços da soja no mercado internacional.

Entre os dias 21 e 26 de janeiro, a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), realizaram uma missão técnica pela Argentina. A equipe visitou as lavouras de soja das quatro principais províncias produtoras do país, sendo elas: Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba e Entre Ríos, que juntas correspondem a 80% da produção argentina. O objetivo foi averiguar as condições da safra dos hermanos.

Nesta entrevista especial, o gestor do Núcleo Técnico da Famato, Eduardo Godoi, e o gestor do Imea, Daniel Latarroca, falam sobre a viagem e orientam os produtores quanto à influência da safra da Argentina no mercado internacional de soja.

Eduardo Godoi, da Famato, e Daniel Latorraca, do Imea.
Eduardo Godoi, da Famato, e Daniel Latorraca, do Imea.

De tudo o que vocês viram na Argentina, o que mais chamou a atenção na viagem?

Daniel Latorraca – Acima de tudo, o que mais nos impressionou foi o descontentamento da população em geral com o governo da presidente Cristina Kirchner. Todos os produtores, corretores e as pessoas com quem conversamos se queixaram do governo e não é para menos. No caso da agricultura, as chamadas “retenciones” (retenções, na tradução para o português) incomodam. O governo intervém na comercialização de trigo e milho, com a alegação de que precisa manter os estoques e preços acessíveis para o mercado interno (o que não acontece) e libera apenas algumas cotas mínimas para a exportação. Esta é uma medida que influencia até o preço do pãozinho que consumidos no Brasil, já que a maior parte do trigo utilizado aqui vem da Argentina. No caso da soja, desde 2008, com a entrada em vigor da Emenda 125, os produtores são obrigados a pagar 35% de impostos na comercialização do grão e mais 35% de uma taxa que equivale ao Imposto de Renda, no Brasil. Com esta porcentagem, é como se o governo fosse sócio do produtor na produção de soja. Há até uma frase que eles gostam de dizer: “A Cristina é uma das maiores produtoras de soja do mundo”.
Com relação ao sistema de produção, é parecido com o Brasil e Mato Grosso?

Eduardo Godoi – Pelo contrário, na Argentina o sistema de produção é totalmente diferente. Para se ter uma ideia, o arrendamento é muito comum no país, sendo cerca de 60% das áreas cultivadas com soja arrendadas, diferente do Brasil, onde os produtores plantam em suas próprias terras. Os contratos de arrendamento são anuais, o que é uma loucura, pois é necessário renovar todos os anos. Há casos como o do grupo La Surte, que arrenda 88 áreas de 88 proprietários diferentes para plantio de soja. Imagine o transtorno para negociar a renovação destes contratos todos os anos? Outra diferença da Argentina com Mato Grosso é que lá entre 15% e 25% da área produzida com soja é plantada em segundo ciclo, seguido do trigo ou cevada, enquanto que em Mato Grosso a segunda safra é destinada ao milho. Na parte de manejo, o trabalho realizado no campo é feito por contratistas (pessoas que são contratadas para trabalhar somente durante a safra), ou seja, o produtor tem baixíssimo valor imobilizado, já que contrata plantio, pulverização e colheita. A parte de armazenagem é muito diferente também, a gente não vê armazéns nas fazendas, como em Mato Grosso. Por lá é muito comum a utilização do que eles chamam de “silo bolsa”, uma espécie de silo improvisado para armazenamento de grãos, que em Mato Grosso a gente viu muito nos períodos de pico de safrinha do milho. O custo de produção, como eles têm os solos muito férteis, é bem baixo. A única coisa que eles usam de fertilizantes são 20 pontos de fósforo por hectare. Já potássio não usam nada. Assim, o custo de produção dos hermanos fica entre US$ 300,00 e US$ 500,00 por hectare, o que é muito baixo considerando os padrões de Mato Grosso onde os custos chegam a ultrapassar US$ 1.000,00
E sobre a comercialização, quais as diferenças?

Daniel Latorraca – Com relação à comercialização, no caso do trigo e do milho, como já abordamos antes, o mercado sofre muita intervenção do governo. No caso da soja, a comercialização é feita de maneira regional, através de contrato forward (contrato à termo). Até agora, 15% da safra 2012/2013 argentina foi comercializada, enquanto em Mato Grosso a venda antecipada já chegou a 70%. Por lá, os produtores preferem esperar a colheita começar para vender sua produção, talvez pelo receio provocado pelas últimas quebras de safra. A logística para escoamento da produção, de longe, não é um problema para os produtores argentinos. Na verdade, é um ganho de competitividade, já que as principais regiões produtores de soja do país estão a um raio de 400 km do porto, com estradas excelentes. A Argentina tem uma capacidade de esmagamento de 48 milhões de toneladas e este é um grande diferencial, o que agrega muito valor ao produto. Nesta safra, que deve ser de 50 milhões de toneladas, 10 milhões t deverão ser exportados em grão e 40 milhões t devem passar pela indústria antes de serem exportados. Sem dúvida é um exemplo a ser seguido pelo Brasil.
Após percorrer cerca de dois mil km de estradas, quais as impressões sobre as condições das lavouras argentinas?

Eduardo Godoi – Se pudéssemos traduzir tudo o que a gente viu sobre condições de lavouras na quatro províncias que visitados (Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba e Entre Ríos) em uma única palavra, esta seria irregularidade. Vimos lavouras excepcionais, com potencial produtivo podendo ultrapassar 5 mil kg por hectare, mas também observamos a grande parte das lavouras plantadas em segundo ciclo com potencial produtivo de apenas 1,5 mil kg por hectare. Conversando com produtores e analistas de mercado da Argentina, percebemos que por lá quase não se acredita em uma safra recorde, diferente do que espera o resto do mundo. A safra 2009/2010, que bateu a casa das 55 milhões de toneladas, não vai ser alcançada. Segundo a aposta dos analistas, a safra dos hermanos deverá girar em torno de 49 milhões de toneladas e 52 milhões de toneladas e após ver de perto as lavouras por lá, também acreditamos que não deva passar disso, já que na época da semeadura choveu demais e agora em janeiro, em que a soja precisa de água para se desenvolver, está faltando chuva.
Falando no que interessa para o produtor de Mato Grosso, este cenário na Argentina não deve interferir tanto no mercado?

Eduardo Godoi – O que podemos garantir é que a safra dos hermanos não será recorde e não deve chegar aos 54 milhões de toneladas, como prevê o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, na sigla em inglês). Os produtores dependem do clima e aguardam a chuva, que em janeiro não veio, para colher uma boa safra. Temos que ficar ligados no cenário climático da Argentina porque muita coisa ainda pode acontecer.

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