À espera da nova Farm Bill

Comitiva é recebida no Senado

Na visita da comitiva do Sistema Famato/Senar ao Congresso norte-americano, em Wahsington, foi visível a preocupação dos senadores dos estados com base agropecuária em relação às discussões acerca dos subsídios destinados à produção agrícola previstos na Lei da Agricultura, a Farm Bill. De forma geral, o sentimento é de que os cortes serão fortes devido à crise econômica.

“Os dois senadores de Dakota do Sul, um democrata e outro republicano, manifestaram o mesmo receio e atenção com o tema”, ponderou o gerente de Aprendizagem Rural do Senar-MT, Marciel Becker, que participou da Missão Técnica nos Estados Unidos.

Embora haja compreensão em relação ao momento atual do País, os senadores reagem à política de corte de custos. “Um dos senadores está propondo uma moratória de dois anos sobre os cortes na agricultura, pois para colocar em prática o pedido do presidente Barack Obama de gerar mais empregos será preciso investir”, comenta Marciel. Outra proposta em estudo é a definição de um limite máximo de subsídio social por família. “Mas se o pagamento de subsídio direto vão se reduzir, provavelmente o subsídio de controle de desastres deve aumentar”, informa Marciel Becker.

A situação econômica norte-americana está tão delicada que foi criado um “super” comitê em agosto para definir os cortes no Poder Executivo, formado por seis senadores e seis deputados. Se o comitê não definir os cortes, a decisão caberá exclusivamente ao Executivo. “A informação que tivemos é que para cada US$ 1,00 gasto nos Estados Unidos, US$ 0,40 são emprestados”, informa o gerente do Senar-MT.

Outro assunto que tem chamado a atenção dos parlamentares é a seca no Texas. Além disso, os senadores se mostraram preocupados com a interferência das agências Protetora dos Animais e do Meio Ambiente sobre a produção animal.

Reunião na Agência de Serviços ao Produtor dos EUA

A comitiva do Sistema Famato/Senar conheceu de perto também a Agência de Serviço ao Produtor, órgão público focado na operacionalização dos subsídios da Farm Bill. Com 2.400 funcionários distribuídos por todos os municípios norte-americanos, a agência administra um orçamento de US$ 5 bilhões para 18 culturas diferentes e 265 milhões de acres. A maior parte dos recursos fica com a agricultura, e o principal foco é minimizar situações de desastres que impactam a atividade rural.

A distribuição dos recursos é feita conforme o tamanho da área, sendo que milho, soja e trigo são as culturas com maior subsídio. Até 1996, os recursos eram feitos por cultura: o produtor não podia mudar de cultura que perderia o subsídio. A partir desse ano, a base de cálculo foi alterada para o tamanho da propriedade.  (Marciel Becker)

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Farm Bureau atende 100% dos Estados Unidos

Bob Stallman, presidente do Farm Bureau

Outra agenda proveitosa nos Estados Unidos foi a visita ao Farm Bureau, entidade similar à Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). A comitiva foi recebida por Bob Stallman, presidente da entidade, que listou as principais dificuldades da organização, permitindo um paralelo entre a realidade norte-americana e a brasileira.

“Vivemos uma grande diferença cultural nos estados, com demandas específicas. Isso nos levou a definir como uma de nossas forças a habilidade em tratar dessas diferenças”, comentou Bob. Hoje, a entidade tem escritórios nos 50 estados norte-americanos. Os temas estratégicos são discutidos nos 2.600 escritórios municipais, depois seguem para uma discussão estadual. Os delegados estaduais se reúnem anualmente em Washington para o fechamento dos trabalhos.

Entre as realidades diferenciadas nos estados, Bob citou o uso do milho para a produção de etanol ao invés da ração animal e o fato de que as usinas criticam a importação de açúcar. “O setor da fruticultura reclama de não receber subsídio, e em alguns estados estamos vivendo um problema muito sério com a água para a produção rural”, cita.

No rol de problemas, o Farm Bureau enfrenta ainda questões de imagem. “Há pessoas e instituições que reclamam do sistema de produção do gado a pasto e confinado. De forma geral, a sociedade americana não sabe de onde vem a comida”, argumenta Bob Stallman. Ongs têm interferido em discussões sobre tecnologia de produção, e cada vez mais a questão de direitos dos animais têm se ampliado. “Apoiamos os direitos dos animais, mas precisamos de fatos científicos para agirmos”, argumenta.

O presidente do Farm Bureau explica que o trabalho ocorre em conjunto com outras associações quando se trata de aprovação de leis. “A instituição é aberta na defesa de políticas, mas não adotamos troca de favores. Participamos da política na esfera estadual, mas não nacionalmente, para podermos manter a independência”, comenta Bob Stallman. A entidade acompanha a atuação dos políticos e define que é “amigo” ou não do setor.

Além disso, produzem relatórios sobre a atuação dos políticos apoiados, que são enviados às unidades estaduais. “O lobby político é presente e fortalece a instituição, mas com regras claras”, pondera o presidente. Existe um encontro anual para o qual é produzido um livro que apresenta os temas defendidos pelo Farm Bureau e os pontos de vista sobre questões polêmicas.

A entidade acompanha de perto o trâmite das Leis Gerais definidas no Congresso, cuja regulamentação fica a cargo das agências nacionais. “Quando julgamos necessário, entramos com ações judiciais na Corte, e atuamos também nos acordos internacionais ou conflitos envolvendo os produtores, como foi o caso do algodão”, exemplifica o presidente da entidade. Entre as conquistas recentes estão a reabertura de alguns mercados depois do fenômeno da vaca louca e acordos comerciais importantes com países asiáticos.

Entre as bandeiras de atuação da organização estão o apoio aos produtores e a oferta de serviços, como ferramentas de comercialização.  (Marciel Becker)

Por dentro do USDA

Bob H. Bokma, do USDA

Uma das visitas mais produtivas da comitiva do Sistema Famato/Senar nos Estados Unidos foi ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o equivalente ao nosso Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Bob H. Bokma, responsável pelo controle de doenças e também pelas importações e exportações de produtos de origem vegetal e animal, foi o anfitrião, municiando a todos com informações sobre a atuação do órgão.

“Temos 30 agências e estamos presentes em todos os municípios dos Estados Unidos”, afirmou Bob. Com a missão de proteger o valor da agricultura americana e os recursos naturais, o USDA é responsável pelo controle sobre animais de pequeno porte e selvagens, além de acompanharem o mercado internacional e as questões voltadas para a biotecnologia, defesa sanitária vegetal nas fronteiras e serviço animal.

Quando há necessidade, cabe ao USDA responder a restrições impostas por outros países a produtor alimentícios norte-americanos. O órgão também tem a tarefa de administrar o Sistema Nacional de Manejo de Incidentes, trabalhando em interação com outras agências. “Controlamos os riscos que porventura possam ocorrer em relação à introdução de pestes animais e vegetais, definindo quarentena de produtos, animais e vegetais quando necessário. Também somos responsáveis por emitir permissões e desrregulações na produção de alimentos”, explica Bob.

Um dos principais termômetros do mercado agropecuário mundial, o USDA tem liderança e autoridade nas questões animais nos Estados Unidos. O trabalho é executado em parceria com estados, municípios e associações, e mesmo não tendo autoridade legal sobre assuntos acerca da saúde humana, o órgão sempre interage diretamente com as agências competentes. (Marciel Becker)

Diagnóstico feito!

“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”. Ayn Rand (filósofa russo-americana, judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920)

É com essa citação que o diretor executivo da Famato, Seneri Paludo, encerra a Missão Técnica que o Sistema Famato/Senar realizou nos Estados Unidos com o objetivo de traçar um diagnóstico da pecuária de corte norte-americana.  “A viagem técnica foi um sucesso, porque nos propiciou conteúdo de ótima qualidade, sem nenhum contratempo e com ótimas reuniões”, resume. A ideia é que os presidentes de Sindicatos Rurais e demais participantes da comitiva possam agora multiplicar o conhecimento obtido durante a missão, levando para seus municípios novas ideias, projetos e informações.

 

Ração animal leva 50% de DDG

Na segunda-feira (24.10), a comitiva do Sistema Famato/Senar nos Estados Unidos passou pelo centro de confinamento Real Cattle, em Grand Island, no Nebraska.  As colinas do Estado são ótimas para os confinadores: da produção de milho, saem vários subprodutos que são usados como fonte de proteína, assim como a soja.

O Real Cattle tem capacidade de 7.000 cabeças e uma média de 130 dias de confinamento. Os animais chegam com um peso em torno de 360 kg, e são abatidos ao alcançarem 559 kg, no caso de fêmeas, e 613 kg, no caso de machos. O custo dos animais fica em US$ 1,00 por libra (machos) e US$ 1,29 por libra (fêmeas). O centro de confinamento tem administração familiar.

Um dos aspectos que mais chamou a atenção da comitiva do Sistema Famato/Senar foi a composição da ração animal. “Metade do composto é formado pelo DDG, ou seja, o substrato que resulta da produção de etanol de milho”, observa o presidente do Sindicato Rural de Poxoréo, José Jorge Sobrinho. Os grãos de milho que são secos por meio de destilação durante o processo de fabricação do etanol consistem praticamente em milho sem amido, resultando em um alimento com alto teor protéico (36%).

No confinamento Real Cattle, a composição da ração animal mescla 50% do chamado DDG, 20% de milho floculado, 6% de feno e 4 a 5% de xarope e minerais. A proporção é de 10 libras de ração animal para 1 libra de peso vivo. Resultados: a mortalidade atual é de 1,5% do total de animais.

Outro ponto que chamou a atenção em Real Cattle foi o custo pela água. “Cada pivô de irrigação custa US$  100 mil, com o poço incluído”, lembra João Roberto de Simoni, conselheiro do Senar.

Logística perfeita

Comitiva confere gestão da usina de etanol

Outra visita feita ontem pela comitiva de Mato Grosso nos Estados Unidos foi na Usina Advanced Bioenergy, que recebe diariamente 150 caminhões com 27 toneladas de milho. Anualmente, a usina produz 3.780 milhões de litros de etanol, e diariamente carrega dez vagões com capacidade para 45 mil litros de álcool.

O grande diferencial é a questão logística: de fazendas do entorno, vem o milho, sendo que 70% volume total utilizado como matéria-prima provém de lavouras irrigadas. Após a produção do combustível, a usina comercializa subprodutos para os mesmos fazendeiros, que utilizam os materiais para a composição de ração animal destinada à pecuária de corte.

Um dos subprodutos mais utilizados a partir da fabricação de etanol de milho é o DDG (grãos de milhos destilados), que diariamente ocupa um volume de 50 caminhões. A maior parte do DDG fica nas áreas de confinamento da região: 90% dos caminhões percorrem uma distância de até 48 km para descarregarem. Além disso, a usina conta com um trecho da malha ferroviária local dentro de seu perímetro, facilitando a logística de escoamento e transporte.

O DDG úmido apresenta 15% de proteína e é comercializado a US$ 110 a tonelada. Seu destino principal é a produção de ração para bovinos. Já o DDG seco, vendido por US$ 205 a tonelada, é adotado como componente na ração para suínos, bovinos e aves, e tem maior índice protéico: 27%.