“A Nova Agricultura”

Tiramos nossa terça-feira para conhecer algumas propriedades rurais no Vale do Loire, região francesa onde está localizada a maior cooperativa de produtores da França, a Terrena. Fomos em quatro propriedades de cooperados da Terrena. Os produtores rurais que nos receberam fazem parte da “Nova Agricultura” desenvolvida pela cooperativa na qual buscam incessantemente atender às novas exigências dos consumidores. Além disso, a preocupação com o bem estar animal, a diversificação da produção e a agregação de valor são evidentes nessas propriedades.

Grupo da Missão França em uma das fazendas visitadas

Começamos o dia com a visita à propriedade do Thomas Beaudusseau. Em 400 hectares ele cria frangos de corte, produz trigo, milho, ervilha e colza, planta de cujas sementes se extrai o óleo de colza, utilizado também na produção de biodiesel. Para os padrões franceses, ele possui uma grande propriedade. São quatro galpões de 400 metros cada com 4400 frangos no total. Além do sistema tradicional de granjas, Beaudusseau também possui uma produção aberta, onde as aves ficam soltas.

Granja onde as aves são criadas soltas

No sistema tradicional as aves ficam prontas para o abate em 40 dias já no aberto esse tempo mais que dobra, chegando a 91 dias. Todo o plantel recebe alimentação sem Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e não são tratados com antibióticos. Os frangos criados soltos têm um valor diferenciado, são entregues à cooperativa por 5,50 euros o kg, já o preço final para o consumidor fica em torno de 10 euros. Por lote, Beaudusseau consegue um lucro em torno de 4000,00 euros.

“O trabalho que tenho para produzir 10 mil aves no sistema tradicional é o mesmo para produzir 4 mil neste sistema aberto. Mas a minha preocupação é atender ao que o consumidor nos pede, com isso agrego valor ao produto”.

Em sua produção de cereais, Beaudusseau adotou a análise de solo com agricultura de precisão. Onde é feita a medição de profundidade do solo, da quantidade de fósforo, de potássio, de matéria orgânica, entre outros. O custo da análise completa é de 150 euros por hectare e a cada cinco anos é feito o processo da análise química novamente. “Com a economia de produtos e o equilíbrio que este mapeamento gera, em dois anos eu consigo recuperar o valor investido”, contou.

Thomas apresenta o mapa da sua lavoura aos produtores

A criação de coelhos foi o foco da nossa segunda visita do dia.  Em uma área de 220 hectares, além dos 3800 animais em regime de engorda e 500 matrizes, Véronique Nerlet e outros quatro produtores criam frangos de corte, vacas leiteiras e produzem cereais. A fazenda deles, foi a primeira a entrar no programa da “Nova Agricultura”.

Alguns dos coelhos de Véronique

Em 2010, os produtores decidiram diminuir o nível de medicamento aplicado nos animais, visando atender à demanda do mercado por animais mais saudáveis, consequentemente adicionaram mais valor ao produto final. O tratamento  é feito à base de óleos essenciais. Com a decisão, em 2013, conquistaram o selo de qualidade da cooperativa.  Na propriedade, o conforto térmico e o bem-estar animal são levados à sério. Além de um sistema completo de refrigeração, os galpões de criação dos animais possuem som ambiente. A alimentação dos coelhos é rica em Ômega 3, com isso a quantidade de gordura na carne é reduzida.

“Sentimos a necessidade de criar produtos diferenciados, para atender ao público cada vez mais exigente”, contou Véronique.

Pascal Beloin foi o terceiro produtor a nos receber. O foco da nossa visita foi a produção de leite (principal atividade da propriedade), mas além das vacas leiteiras, em seus 95 hectares Beloin produz milho, trigo e alfafa (para silagem).

Parte do rebanho de Beloin

São 80 vacas leiteiras, 70 estão em lactação atualmente. A produção anual é de 700 mil litros de leite. Cada vaca produz cerca de 9500 kg de leite por ano, no Brasil, essa média é de 1300 kg. Um dos diferencias do leite produzido por Beloin é o teor de gordura e proteína, são 4,13% de gordura por kg e 3,25% de proteína por kg. Com a agregação de valor, o preço pago pelo produto recebe uma bonificação. A cada mil litros são 15 euros de bonificação. Para garantir mais conforto ao seu rebanho, Beloin deixa um espaço maior que o habitual nas camas dos animais.

Beloin em seu sistema de ordenha

Encerramos nosso dia na granja de suínos do Thierry Lambert que decidiu investir cerca de 850 mil euros em um novo barracão que garante conforto térmico ao seu rebanho. Com o novo sistema ele também conseguiu aumentar em três vez o espaço para seus animais, oferecendo um espaço de 0,8 metros quadrados para cada um.

O grande diferencial do sistema é a reutilização do ar que passa pelo barracão durante o inverno para manter a temperatura e economizar energia. Para os leitões, foi construído um ninho para que haja menos perda de calor no inverno. “Implantamos este novo sistema há um ano e já posso dizer que houve uma economia de 50% da energia”, informou Lambert.

Além da economia, Lambert garante que o sistema promove mais sanidade aos animais ao manter a circulação de ar puro durante o inverno. Na granja, existem vários outros mecanismos para garantir o bem estar animal, um deles leva em conta a quantidade de espirros dos suínos. Os dados são enviados para um smartphone e analisados por técnicos. A eliminação dos antibióticos após 45 dias de vida também faz parte da implantação “Nova Agricultura”.

Estrutura que garante mais conforto aos animais
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Produtores de MT conhecem sistema de cooperativismo na França

A cooperativa Terrena, a principal de produtores rurais da França e a segunda maior da Europa foi quem nos recebeu nesta segunda-feira. A cooperativa tem 130 anos de história, conta com 29 mil associados, mais de 15 mil trabalhadores assalariados. Localizada no Vale do Loire, investe cerca de 100 milhões de euros por ano e movimentou, em 2016, 5,2 bilhões de euros.

Membros da Missão França ouvem atentos as informações sobre a Terrena

No continente europeu, a Terrena é conhecida por seus valores e sua credibilidade econômica. Buscando desenvolver o território, valorizar o produtor rural e agregar valor aos produtos locais.

O gerente do departamento Técnico do Senar-MT,  Guto Zanata, conta quando e como surgiu a ideia de levar os líderes do agro mato-grossense à Terrena.

O presidente do Sindicato Rural de Poxoreú, José Jorge Sobrinho, diz que levará esse exemplo de cooperativismo para o município.

“Acredito que seja possível implantar um processo semelhante ao da Terrena junto com os pequenos produtores de Poxoréu, agregando valor ao que é produzido, oferecendo produtos de qualidade ao consumidor e gerando mais renda ao nosso produtor e consequentemente para o município”.

A agregação de valor promovida pela cooperativa junto aos seus cooperados, chamou a atenção do presidente do Sindicato Rural de Alta Floresta, Walmir Naves Coco.

 

 

Produtores de Mato Grosso conhecem criação de Limousin

Originária do sudoeste da França, a raça bovina Limousin impressiona pelo seu peso e tamanho. O nosso grupo de produtores rurais que está em Missão Técnica no país conheceu uma propriedade rural, localizada no distrito de Aveyron, que possui um rebanho de 100 vacas da raça. O objetivo é criar bezerros para o abate. A lotação é de uma vaca por hectare.

Vacas da raça Limousin

Na propriedade de Olivier Garry, os bezerros são abatidos com oito meses de idade, pesando aproximadamente 350 kg. Além do leite, eles são alimentados com um composto de quatro tipos de cereais, torta de colza, milho e polpa de beterraba. Com oito e dez anos de idade as vacas são descartadas, o peso final é de aproximadamente 650 kg, o rendimento da carcaça é de 58%.

Olivier e parte do seu rebanho

O produtor rural de Brasnorte, Aldo Rezende Telles, acredita que o nelore criado no Brasil não perde em nada para a raça Limousin, Confira a opinião dele.

O pecuarista e presidente do Sindicato Rural de Juara, Jorge Mariano de Souza, pontua as diferenças entre o esse sistema de criação e o adotado em Mato Grosso.

 

Aprendendo sobre o Roquefort

Você sabia que um dos mais famosos queijos do mundo, o Roquefort, é produzido há mais de 2000 anos? Sabia que ele é curado dentro de cavernas (caves) onde a temperatura média é em torno dos 8℃ e a umidade é de 98%? E que é produzido em apenas um lugar do mundo?

Queijo Roquefort pronto para degustação

Essas e outras curiosidades sobre o queijo Roquefort foram descobertas pelo nosso grupo que está em Missão Técnica na França, durante uma visita a uma das cavernas de maturação do queijo.

O queijo Roquefort tem este nome justamente por ser produzido em Roquefort-sur-Soulzon, pequena cidade que fica em Aveyron, no Midi-Pirenéus, na França. O nome é patenteado e apenas os queijos maturados nessa cidade podem ser chamados de Roquefort, assim como a Champagne que só Champagne se for da região de Champagne.

Queijo sendo maturado à moda tradicional

A visita pela caverna de maturação de queijo durou em torno de 1h e foi uma verdadeira aula. Aprendemos que o queijo é produzido com leite cru (não pasteurizado) de ovelhas da raça Lacaune, provenientes da região.

A região de coleta de leite para a produção se limita a uma zona situada dentro de um raio de 100km ao redor da pequena cidade.

Na fabricação do Roquefort são injetados fungos do tipo Penicillium Roqueforti (que nada tem a ver com a penicilina) na massa. O queijo passa pelo processo de maturação que consiste em controlar a temperatura e perfurá-lo para facilitar o desenvolvimento dos fungos. Após 90 dias ele está pronto para ser consumido. O peso médio de um queijo Roquefort ficar em torno de 2,8kg.

Os fungos são os responsáveis por desenvolver no Roquefort as manchas verde-azuladas e o  sabor marcante e  inigualável

Diz a lenda que o queijo foi descoberto quando um jovem pastor deixou seu almoço, um pão e um queijo de leite de ovelha, em uma caverna para ir ao encontro de uma linda mulher que viu à distância. Meses depois ele encontrou seu almoço mofado por dentro e por fora.

Apenas sete empresas fabricam o queijo. Visitamos a maior delas, a Société, que fornece cerca de 70% do queijo Roquefort no mundo.

Grupo de produtores de MT após a visita à caverna

Apaixonado por queijos, o assessor de Relações Institucionais do Senar-MT, Rogério Romanini, ficou impressionado com a história do Roquefort.

Rogério Romanini

“Eu já comia e apreciava o queijo, mas não conhecia a história. Não sabia, por exemplo, que ele é produzido com leite de ovelhas e nem fazia ideia de como era desenvolvido o fungo. O mais legal foi ver como o queijo é curado. Agora quando eu for comer Roquefort terei uma história para contar”.

 

 

Primeiras impressões

Encerramos o nosso terceiro dia de trabalho na França. É hora de saber o que os participantes estão achando da Missão.

O diretor do Sindicato Rural de Guiratinga, Valdir Martini, conta suas impressões destes primeiros dias.

O diretor da Famato, Édio Brunetta, também fala sobre o que tem chamado sua atenção em Toulouse.

Sistema pastoril impressiona produtores de Mato Grosso

O sistema agropastoril da região dos Pirineus da França surpreendeu os participantes da Missão Técnica.

Os primeiros registros de comunidades agropastoris nessa região são do século XII, mas acredita-se que o sistema pode ter surgido antes. Nesses sistemas os animais são criados de acordo com as características naturais do relevo, da vegetação e do clima. Hoje, pelo menos seis mil famílias em toda a região dos Pirineus, que vai até a Espanha, vivem do agropastoralismo.

Felipe Lacube, pastor que está há 25 anos na região e hoje possui um rebanho de 80 cabeças de gado, 100 de suíno e 600 patos, foi quem recebeu os produtores mato-grossenses. Lacube conta que durante o inverno seu rebanho bovino pastoreia na parte baixa da região e quando o frio vai embora os animais sobem 2600 metros e são criados soltos com animais de outros pastores. Essa migração periódica de rebanhos da planície para as montanhas recebe o nome de transumância. De acordo com Lacube, seus animais levam em torno de um dia e meio para completar a subida.

Pastor Felipe Lacube explicando sobre as tradições para os participantes da Missão
Pastor Felipe Lacube explicando sobre as tradições para os participantes da Missão
Pastor Felipe Lacube e o grupo em seu restaurante.
Pastor Felipe Lacube e o grupo em seu restaurante.

O pecuarista de Juara, Jorge Mariano de Souza, ficou impressionado com a dificuldade que os pastores enfrentam. “A força e a coragem desse povo é de se admirar. Produzir neste sistema não é nada fácil, o manejo do gado é muito trabalhoso. Depois que sobem, os animais ficam soltos correndo riscos de serem atacados por ursos. O produtor não sabe ao certo quando vai ver seus animais novamente. Nessas horas vemos o quanto somos abençoados com terras planas, onde temos controle do nosso rebanho”.

Lacube e outros pastores conciliam a atividade com o turismo. Segundo ele, sem o manejo dos animais o turismo não seria possível. Durante o inverno a região recebe milhares de turistas devido às estações de esquis, mas se os animais não tivessem passado o verão nas montanhas a atividade turística seria inviável. “São os animais que mantêm os montes limpos e intactos, eles se alimentam de arbustos altos que impediriam a prática de esqui. O pastoreio também permite a existência de vegetais endêmicos e animais que ajudam na questão ambiental”, explicou.

“Achei fantástico esse sistema em que a criação de gado é integrada com o turismo. É muito interessante ver que a preservação da cultura atrai pessoas para a região”, disse o pecuarista de Paranatinga Eduardo Minoru.

Tradição – A preservação da tradição foi outro ponto que chamou a atenção dos produtores mato-grossenses. Tudo o que é consumido é produzido na região, não há importação de produtos. Felipe Lacube também é sócio de um restaurante nos Pirineus, no estabelecimento dele e nos demais só é possível encontrar produtos locais.

“Na região não é possível encontrar suco de laranja porque alimentos cítricos não são produzidos nos Pirineus. Esse fortalecimento da cultura, da regionalização e da produção local conciliado à vontade de manter as tradições é algo bem elaborado e respeitado aqui. Para nós isso é uma lição”, afirmou o diretor de Relações Institucionais da Famato, José Luiz Fidelis.

Participantes da Missão Técnica
Participantes da Missão Técnica

História que inspira

Em nosso segundo dia no sul da França tivemos o prazer de conhecer uma senhora encantadora, Claudine Bot, pequena produtora rural francesa que nos recebeu de braços abertos em sua propriedade.

Nossa anfitriã Claudine explica seu sistema de produção

Claudine mora em uma propriedade de 75 hectares (ha) localizada a 30 km de Toulouse. Quarenta hectares ela arrenda para um sobrinho produzir trigo, os outros 35 ha ela cria patos, galinhas e galinhas de angola. Ao ano ela comercializa cerca de 4000 aves. Além de vender sua produção para os vizinhos, por meio de uma feira que ela promove semanalmente em sua propriedade com outros produtores locais, ela ainda transforma e agrega valor a sua produção.

Claudine e seus produtos já transformados

Cerca de 150 consumidores visitam a feira que ela organiza. Além dela, mais seis produtores locais comercializam seus produtos. Claudine também vende suas aves no sistema de cesta, no qual, juntamente com outros produtores, entrega semanalmente aos seus consumidores uma variedade de produtos já pré-definidos. A produtora também entrega sua produção para pequenos frigoríficos, mercadinhos e cantinas, além disso ainda cozinha para festas particulares.

Grupo da Missão Técnica e a querida Claudine

O mais incrível dessa história é que Claudine faz tudo isso sozinha! Desde de 2005, após o seu esposo sofrer um acidente e perder a visão, ela assumiu a propriedade. Antes disso, trabalhava como funcionária pública. Por cuidar da propriedade, ela perdeu o direito a sua aposentadoria. Claudine é ou não é uma verdadeira inspiração?