BALANÇO POSITIVO

Agregação de valor, produtos certificados, busca por tecnologias, atendimento às necessidades do mercado, incentivos e subsídios do governo. Estes  foram os termos mais escutados pelo nosso grupo de 25 pessoas durante a Missão Técnica França entre os dias 12 e 25 de junho. Estivemos mergulhados no sistema de produção francês com o objetivo de buscar novidades que possam ajudar a melhorar a agropecuária mato-grossense. Vamos saber o que trazemos de bom dessa viagem?

“Os produtores franceses trabalham para atender às necessidades do seu consumidor e para isso agregam valor à matéria-prima, buscam certificação, transformam seus produtos. Esse é um caminho que devemos seguir no Brasil também”, diz o diretor Administrativo e Financeiro da Famato, Vilmondes Tomain,

Veterano em missões técnicas, o produtor rural de Porto Alegre do Norte e diretor da Famato, Édio Brunetta, acredita que esta foi uma das missões mais importantes que participou.

“Durante esses dias tivemos a oportunidade de ver que a Europa já está em um segundo momento do agronegócio com a implantação da verticalização dentro das próprias propriedades. Ao longo do tempo, eles conseguiram criar marcas próprias para que o produtor tenha mais renda. Vimos pequenos produtores que conseguem industrializar seus produtos e eles mesmos comercializarem localmente. Me chamou atenção também ver que a sociedade reconhece o valor do produtor rural, na França eles são tratados com respeito, dignidade e a sociedade é parceira do produtor”.

O produtor rural de Brasnorte, Aldo Rezende Telles (segundo da esquerda para direita) conta que as visitas às diferentes propriedades rurais na região de Aveyron o fez abrir os olhos.

“O que levo de aprendizado durante essas visitas é que está na hora de começarmos a pensar diferente. Temos que buscar formas de agregar valor ao que produzimos, seja por meio da transformação dos produtos ou por meio da comunicação. Temos que mostrar para a sociedade que o produto que fazemos é sustentável, atende à legislação. Temos que certificar nossos produtos, assim como é feito aqui”

 

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De volta para casa

Nossa Missão Técnica chegou ao fim. É hora fazermos um balanço desses dias na França e compartilharmos nossas experiências.

O Assessor de Relações Institucionais do Senar-MT, Rogério Romamani, foi um dos organizadores da nossa viagem. Vamos ouvir o que ele traz de bom em sua bagagem?

O presidente do Sindicato Rural de Aripuanã, Aparecido Piola, acredita que, assim como os franceses, é possível sermos mais rentáveis na nossa produção.

Para o presidente do Sindicato Rural de Poxoréu, o que mais chamou atenção foi a busca dos produtores em produzir aquilo que o mercado quer.

 

Política de incentivos a produtores rurais da Europa é tema de visita ao Ministério da Agricultura da França

Criada em 1962 a Política Agrícola Comum da União impressionou os membros da Missão Técnica França que na última sexta-feira (23/06) foram recebidos no Ministério da Agricultura e Alimentação da França. O continente investe 58 bilhões de euros por ano no setor agropecuário, o que representa 40% do orçamento total do bloco de países.

A Missão é promovida pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-MT), com o objetivo de promover a troca experiências e gerar novos conhecimentos que podem auxiliar o desenvolvimento da produção mato-grossense. O grupo é composto por produtores rurais, presidentes e dirigentes de sindicatos rurais, representantes das três fazendas ganhadoras do Prêmio Sistema Famato em Campo Edição 2016, os vencedores do Prêmio de Mobilização 2015 do Senar-MT, diretores e colaboradores do Sistema Famato.

Participantes da Missão Técnica no Ministério da Agricultura e Alimentação da França

O representante da União Europeia no Ministério da Agricultura e Alimentação da França, Jean-Michel Rouxel, explicou que a Política Agrícola Comum foi a primeira a ser discutida no continente. Segundo ele, ao fim da 2ª Guerra Mundial a Europa não produzia alimentos suficientes para a sua população, por isso a necessidade de desenvolver a agricultura.

Além de assegurar a produção de alimentos e promover um padrão de vida melhor para os produtores, a política também foi desenvolvida para garantir bons alimentos com preços acessíveis aos europeus, aumentar a produtividade das culturas e estabilizar os mercados. “Resumindo, o produtor tinha que ganhar o suficiente para ter uma boa vida e o consumidor ter produtos de qualidade com bons preços”, explicou Rouxel.

Para isso, foram usadas quatro ferramentas: a proteção das fronteiras; a garantia de preços mínimos sem limites em caso de super safras; estoques públicos também sem limites e uma a política para a restruturação das propriedades. Entretanto, alguns anos depois os problemas de excesso de produção começaram a aparecer e no início dos anos 1990 a política foi reestruturada.

Representante do Ministério da Agricultura da França apresenta a política agrícola do país aos produtores de MT

A partir de então ficou estabelecido que em vez de preço mínimo, o produtor receberia um subsídio para produzir. E para reduzir o número de agricultores no continente que a política sem limites havia gerado, algumas barreiras ambientais foram criadas.  Em 1999 foi introduzido mais um pilar na política comum que consiste em apoiar os investimentos privados e públicos dentro das propriedades.

Essa política persiste até os dias atuais, entretanto, para receber os subsídios o produtor precisa atender algumas condicionantes, entre elas garantir o bem-estar animal e a segurança alimentar. Os pagamentos também começaram a ser de acordo com a área de produção.

A União Europeia também desenvolve ferramentas de redução de risco, com o pagamento do prêmio do seguro agrícola e a criação de fundos mútuos.

De acordo com Rouxel, a França recebe cerca de 9 bilhões de euros por ano da União Europeia para serem injetados no setor. Além deste valor, o país investe mais 70% em cima dos 9 bilhões na agricultura e pecuária.

Jean-Michel Rouxel explicou que o valor é  dividido em duas formas de subsídios ao produtor rural. “Além de realizarmos os pagamentos básicos por hectare que todos recebem, ainda fazemos pagamentos extras aos produtores jovens e aos que produzem de acordo com as regras dos produtos com selo BIO”, disse Rouxel.

Os produtores que estão em áreas onde o cultivo é difícil, como é o caso dos Pirineus, o governo francês ainda oferece outros incentivos. Segundo o representante do ministério, esses pagamentos são para que os produtores não deixem de produzir nessas áreas. Também são oferecidos subsídios extras aos produtores que trabalham com culturas difíceis.

“É incrível a forma que o governo europeu trata seu produtor rural. Há toda uma proteção e um incentivo para que os agricultores permanecem no campo, os produtores têm seu valor reconhecido. Saímos daqui energizados, com vontade de buscar ainda mais mudanças para nós no Brasil”, disse o diretor de Relações Institucionais da Famato, José Luiz Fidelis.

Incentivos para os jovens – O governo francês desenvolve uma política especial para os jovens que pretendem ingressar na atividade. De acordo com o Ministério da Agricultura e Alimentação da França, a idade dos produtores tem aumentado, cerca de 35% deles têm mais de 55 anos e o número de produtores tem diminuído. Por ano a cada 20 mil que deixam a atividade, apenas 12 mil ingressam.

Para incentivar o aumento dessa taxa de renovação, a França oferece subsídios especiais aos jovens que pretendem trabalhar na produção de alimentos. Os incentivos podem chegar a 70 mil euros. O plano de investimento tem duração média de quatro anos. Por ano, cinco mil jovens produtores são beneficiados, a média de investimento é de 20 mil euros por produtor.

“É muito interessante ver esse apoio que o governo francês oferece para quem está iniciando, pois nos primeiros anos são realmente difíceis para se manter na atividade”, disse o presidente do Sindicato Rural de Alta Floresta, Walmir Naves Coco.

A sucessão familiar também é incentivada no país. O jovem produtor que entra na atividade para substituir os pais recebe um incentivo de quatro mil euros para iniciar o seu trabalho.

Jovem produtor francês (à direita) apresenta sua fazenda aos mato-grossenses

Outro ponto que é valorizado pelo governo da França é a educação. Para ter direito aos subsídios, o jovem produtor precisa ter curso superior. “Queremos que esses novos produtores tragam o que aprenderam nas salas de aula para dentro da propriedade, promovendo o desenvolvimento de novas formas de agricultura.

Também queremos que eles trabalhem cada vez mais na agregação de valor e na busca de produtos certificados, com isso queremos manter a atividade no país”, afirmou o representante do Ministério da Agricultura.

Édio Brunetta, produtor rural em Porto Alegre do Norte e diretor da Famato, disse que é esse tipo de incentivo que falta no Brasil.

“Vimos que mais de 75% dos jovens que vão assumir uma propriedade na França têm uma formação, isso mostra que os produtores franceses estão cada vez mais capacitados, competentes e produtivos.  Além disso eles ainda possuem incentivos para investirem nas propriedades com alta tecnologia. Todos os investimentos retornam para os produtores, enquanto no Brasil não temos a certeza disso”.

Segundo o governo francês, 96% dos jovens que receberam os subsídios permaneceram no campo após 10 anos. A taxa de permanência dos que não receberam é de 85%.

 

Rungis, o maior mercado de produtos frescos do mundo

Inaugurado em 1964, o Rungis é o maior mercado de produtos frescos do mundo. São 2 milhões de metros quadrados, uma verdadeira cidade-mercado, que impressiona pelos números anuais em relação às mercadorias, vendedores e compradores. E nós, da Missão Técnica França, tivemos a oportunidade de conhecer essa imensidão.

Membros da Missão Técnica em Visita ao Mercado de Rungis

São mais de 1200 empresas vendendo o melhor de seus produtos diariamente no mercado Rungis, e cerca de 12 mil funcionários para organizar essa enorme logística. Em 2015, 18 milhões de consumidores estiveram no mercado, o que movimentou 2,82 milhões de toneladas de produtos, 69% foram frutas e legumes, 16% carnes, 9% laticínios, 6% frutos do mar e de água doce.

Os pavilhões são enormes e separados. Há os de carne, peixes, queijos, frutas e legumes, derivados do leite e ovos, charcutaria, e flores. No Rungis é possível encontrar absolutamente tudo, e na melhor qualidade possível.

Peixes frescos para comercialização no Rungis

No espaço destinado a carnes, há boi, cordeiro, bezerro, coelho, aves como pato, codorna, pombos e frangos, e também suíno.

Produtor de Guiratinga, Valdir Martini ficou impressionado com a grandeza do Mercado

O pavilhão de queijo tem mais de 450 tipos a venda e gigantes exemplares a mostra. Entre eles os famosos e tradicionais camembert, brie, parmesão, gruyère, emmental, roquefort, reblochon. No mesmo setor há a parte dedicada à charcutaria.

Variedade de queijos no Mercado

O pavilhão de legumes e frutas é o maior e fornece vegetais do mais alto padrão de qualidade, e com uma variedade enorme. Em todos os setores do mercado, é perfeita a limpeza e organização.

Pavilhão de frutas, legumes e verduras

Compartilhando conhecimento

Nossa Missão Técnica França está chegando ao fim. Foram dias intensos, de muito aprendizado, mergulhados no sistema produtivo francês. Além dos líderes sindicais rurais de Mato Grosso, a nossa comitiva na França contou com a presença dos representantes das propriedades rurais que foram destaque no Prêmio Sistema Famato em Campo 2016.  A visita à França foi a premiação deles por desenvolverem um sistema de produção que serve de modelo para outros produtores.

Os três vencedores  do Prêmio compartilham nos vídeos abaixo o que levarão na bagagem de volta para Mato Grosso.

“A Nova Agricultura”

Tiramos nossa terça-feira para conhecer algumas propriedades rurais no Vale do Loire, região francesa onde está localizada a maior cooperativa de produtores da França, a Terrena. Fomos em quatro propriedades de cooperados da Terrena. Os produtores rurais que nos receberam fazem parte da “Nova Agricultura” desenvolvida pela cooperativa na qual buscam incessantemente atender às novas exigências dos consumidores. Além disso, a preocupação com o bem estar animal, a diversificação da produção e a agregação de valor são evidentes nessas propriedades.

Grupo da Missão França em uma das fazendas visitadas

Começamos o dia com a visita à propriedade do Thomas Beaudusseau. Em 400 hectares ele cria frangos de corte, produz trigo, milho, ervilha e colza, planta de cujas sementes se extrai o óleo de colza, utilizado também na produção de biodiesel. Para os padrões franceses, ele possui uma grande propriedade. São quatro galpões de 400 metros cada com 4400 frangos no total. Além do sistema tradicional de granjas, Beaudusseau também possui uma produção aberta, onde as aves ficam soltas.

Granja onde as aves são criadas soltas

No sistema tradicional as aves ficam prontas para o abate em 40 dias já no aberto esse tempo mais que dobra, chegando a 91 dias. Todo o plantel recebe alimentação sem Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e não são tratados com antibióticos. Os frangos criados soltos têm um valor diferenciado, são entregues à cooperativa por 5,50 euros o kg, já o preço final para o consumidor fica em torno de 10 euros. Por lote, Beaudusseau consegue um lucro em torno de 4000,00 euros.

“O trabalho que tenho para produzir 10 mil aves no sistema tradicional é o mesmo para produzir 4 mil neste sistema aberto. Mas a minha preocupação é atender ao que o consumidor nos pede, com isso agrego valor ao produto”.

Em sua produção de cereais, Beaudusseau adotou a análise de solo com agricultura de precisão. Onde é feita a medição de profundidade do solo, da quantidade de fósforo, de potássio, de matéria orgânica, entre outros. O custo da análise completa é de 150 euros por hectare e a cada cinco anos é feito o processo da análise química novamente. “Com a economia de produtos e o equilíbrio que este mapeamento gera, em dois anos eu consigo recuperar o valor investido”, contou.

Thomas apresenta o mapa da sua lavoura aos produtores

A criação de coelhos foi o foco da nossa segunda visita do dia.  Em uma área de 220 hectares, além dos 3800 animais em regime de engorda e 500 matrizes, Véronique Nerlet e outros quatro produtores criam frangos de corte, vacas leiteiras e produzem cereais. A fazenda deles, foi a primeira a entrar no programa da “Nova Agricultura”.

Alguns dos coelhos de Véronique

Em 2010, os produtores decidiram diminuir o nível de medicamento aplicado nos animais, visando atender à demanda do mercado por animais mais saudáveis, consequentemente adicionaram mais valor ao produto final. O tratamento  é feito à base de óleos essenciais. Com a decisão, em 2013, conquistaram o selo de qualidade da cooperativa.  Na propriedade, o conforto térmico e o bem-estar animal são levados à sério. Além de um sistema completo de refrigeração, os galpões de criação dos animais possuem som ambiente. A alimentação dos coelhos é rica em Ômega 3, com isso a quantidade de gordura na carne é reduzida.

“Sentimos a necessidade de criar produtos diferenciados, para atender ao público cada vez mais exigente”, contou Véronique.

Pascal Beloin foi o terceiro produtor a nos receber. O foco da nossa visita foi a produção de leite (principal atividade da propriedade), mas além das vacas leiteiras, em seus 95 hectares Beloin produz milho, trigo e alfafa (para silagem).

Parte do rebanho de Beloin

São 80 vacas leiteiras, 70 estão em lactação atualmente. A produção anual é de 700 mil litros de leite. Cada vaca produz cerca de 9500 kg de leite por ano, no Brasil, essa média é de 1300 kg. Um dos diferencias do leite produzido por Beloin é o teor de gordura e proteína, são 4,13% de gordura por kg e 3,25% de proteína por kg. Com a agregação de valor, o preço pago pelo produto recebe uma bonificação. A cada mil litros são 15 euros de bonificação. Para garantir mais conforto ao seu rebanho, Beloin deixa um espaço maior que o habitual nas camas dos animais.

Beloin em seu sistema de ordenha

Encerramos nosso dia na granja de suínos do Thierry Lambert que decidiu investir cerca de 850 mil euros em um novo barracão que garante conforto térmico ao seu rebanho. Com o novo sistema ele também conseguiu aumentar em três vez o espaço para seus animais, oferecendo um espaço de 0,8 metros quadrados para cada um.

O grande diferencial do sistema é a reutilização do ar que passa pelo barracão durante o inverno para manter a temperatura e economizar energia. Para os leitões, foi construído um ninho para que haja menos perda de calor no inverno. “Implantamos este novo sistema há um ano e já posso dizer que houve uma economia de 50% da energia”, informou Lambert.

Além da economia, Lambert garante que o sistema promove mais sanidade aos animais ao manter a circulação de ar puro durante o inverno. Na granja, existem vários outros mecanismos para garantir o bem estar animal, um deles leva em conta a quantidade de espirros dos suínos. Os dados são enviados para um smartphone e analisados por técnicos. A eliminação dos antibióticos após 45 dias de vida também faz parte da implantação “Nova Agricultura”.

Estrutura que garante mais conforto aos animais